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Professor do IFMA Leandro Lago lança livro sobre o grotesco

Obra “Senhoras e senhores, com vocês o grotesco tragicômico no palhaço” é fruto de pesquisa de mestrado
  • Assessoria de Comunicação
  • publicado 09/07/2019 12h55
  • última modificação 15/07/2019 12h50

O professor de Artes Leandro Lago, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) Campus Bacabal, lançou o livro “Senhoras e senhores, com vocês o grotesco tragicômico no palhaço”, em evento realizado no dia 4, na Livraria AMEI, da Associação Maranhense de Escritores Independentes, em São Luís. O livro é fruto de sua pesquisa de mestrado realizado no Programa de Pós-graduação em Artes do Instituto de artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Outro lançamento está previsto para ser realizado em Bacabal, na Semana nacional de Ciência e Tecnologia, em outubro.

Com um estilo único e curioso, o autor aborda a estética do teatro em um estudo original sobre o bizarro e o feio, por meio de uma analogia entre o grotesco tragicômico no palhaço e as personagens Doutor, Capitão e Woyzeck da obra Woyzeck, de Georg Büchner. No livro, Leandro Lago destaca ainda a capacidade de o grotesco conseguir dialogar sobre elementos aparentemente contraditórios, manifestados a partir de seu aspecto tragicômico.

Qual a relação entre o grotesco e a obra Woyzeck?

Leandro Lago – Primeiro é importante apontarmos que a obra Woyzeck, bem como a dramaturgia de Georg Buchner, são influenciadas pelo movimento Pré-Romântico alemão. Essa influência fornece a toda a sua obra um caráter anticlassicista, o que torna  Woyzeck uma obra que apresenta algumas características que vão de encontro à ideia de obra linear, bem acabada, ou seja, obra que primam por uma certa harmônia e equilíbrio de escrita, e que seguem cânones, a exemplo de obras ditas clássicas. Woyzeck pelo contrário é uma obra composta por fragmentos e de caráter aberto. Entendendo a obra nesses aspectos, podemos compreendê-la melhor e partir para a reflexão da utilização do grotesco como um dos elementos que reforçam essa oposição ao classicismo, até porque, desde o Pré-Romatismo, o grotesco era uma categoria estética usada como forte elemento anticlassicista. Por outro lado, para além dessa concepção técnica da forma de escrita da literatura Pré-Romântica e da literatura Clássica, o grotesco era um elemento usado como forma de crítica à concepção do homem moderno. É nesse aspecto que a obra Woyzeck se aproxima do grotesco. O personagem Woyzeck se vê controlado por forças as quais não sabe de onde vem, seria uma alegoria muito utilizada  pelos Pré-Românticos, chamada de homem títere ou homem marionete, aquele homem que age apenas e não pensa muito no que faz e isso é uma imagem e uma concepção grotesca. Woyzeck ouve vozes em sua cabeça que o fazem agir. A obra mistura o tempo inteiro aspectos da realidade com um universo fantástico, onírico e essa mistura cria um efeito de estranhamento típico de formas grotescas. Segundo Anatol Rosenfeld, “é essa visão dos seres humanos como fantoches que dá ao Woyzeck de Buchner – em conjunção com forte cunho realista – o caráter grotesco.”

Dessa forma, o grotesco se apresenta na obra a partir de como Buchner concebe as personagens, as relações entre elas, a mistura entre elementos do cômico com o trágico, a exemplo dos personagens Doutor e Capitão, que são inspirados em personagens da Commedia Dell’arte e se movem na trama como esses personagens, porém são, dentro do contexto de Woyzeck, personagens terríveis. Na obra existem traços que antecedem o Expressionismo, portanto o texto de Buchner é um texto Pré-Expressionista, o que reforça ainda mais esses aspectos do grotesco, sobretudo quando vemos  a ideia de ver o homem como um ser disforme. Essa é a visão crítica do autor, e o grotesco entra na obra  para reforçar essa visão do autor sobre o homem moderno, o homem como um ser disforme.

O senhor destaca ainda que o grotesco incorpora elementos contraditórios. Poderia explicar um pouco melhor essa relação?

Leandro Lago – Mikhail Bakhtin, em seu livro “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”, chama atenção para duas concepções de grotescos. À primeira ele atribui aspectos populares, característicos das festas populares, carnavalescas, enfim. Para esta ele vai atribuir uma força parodística, uma força que tem a capacidade de transformar o terrível e o espantoso do mundo habitual em formas alegres e carnavalescas, e isto provocava o riso que o teórico vai apontar como riso popular. Por outro lado, ele vai falar de um outro grotesco, uma segunda concepção, que ele vai chamar de grotesco romântico. Sobre esse, ele afirma que se distância do caráter popular e perde o seu princípio regenerador e o riso torna-se atenuado, sombrio. Bakhtin diz que sem o princípio do cômico não existe grotesco, mas o cômico torna-se diferente durante o contexto do que ele chamou de grotesco romântico. A partir daí, já podemos perceber a relação entre elementos a princípio antagônicos, essa mistura entre o trágico e o cômico que provoca o riso sombrio, um riso angustiado, um riso trágico, típicos da ironia e do sarcasmo.
Victor Hugo, em seu livro “Do Grotesco e do Sublime: tradução do prefácio de Cromwell”, nos apresenta um aspecto de como o grotesco é usado como elemento capaz de incorporar elementos contraditórios sobretudo como forma de se contrapor à estética Clássica da dramaturgia. Nesse obra, quase que escrita em forma de manifesto, Hugo aponta que em obras ditas clássicas, já poderíamos pinçar elementos grotescos permeando por elas. Ele vai de encontro à estética Clássica usando o grotesco como esse elementos capaz de incorporar aspectos do clássico, como a boa métrica, a harmonia, a simetria, ou seja o sublime, e ao mesmo tempo, traz elementos do disforme, feio. E afirma ainda que é da junção entre o belo e o feio, trágico e o cômico, que surge o pensamento moderno. “No pensamento dos Modernos, ao contrário, o grotesco tem um papel imenso. Aí está por toda a parte; de um lado, cria o disforme e o horrível; do outro, o cômico e o bufo.” (HUGO, 2004, p. 30). Desta forma, o grotesco se apresenta como um elemento estético capaz de reunir elementos contraditórios e isso se torna uma das principais características do grotesco.

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